quinta-feira, 9 de junho de 2011

CAÇA AO BÚFALO SELVAGEM NA ILHA DO MARAJÓ.


Transmito aos atiradores aventureiros que acompanham agente, este fantástico conto de Heriberto Reátegui,que mostra toda a essência de um aventureiro,em plena ilha do Marajó-Pará-Amazônia. Já fizemos algumas aventuras nesta ilha e pretendemos voltar lá muito em breve! Vamos a história:
CAÇA AO BÚFALO
As armas de caça, naqueles tempos, já eram bastante poderosas. Adquiridas livremente, tanto na capital da então Guiana Francesa - Caiena - como nos Estados Unidos, marcas famosas como as Mauser e Lugger alemãs, as Winchester, Remingthon e Savages americanas, as Beretas italianas, além de tantas outras francesas e espanholas, faziam a alegria dos caçadores amadores e mesmo colecionadores que existiam àquele tempo, no Amapá.
Aviões da antiga Panair do Brasil faziam viagens diárias a Caiena e, semanalmente, helicópteros da Força Aérea Americana, sediados na Base Aérea do Amapá, levantavam vôo para os Estados Unidos e voltavam carregados de encomendas que fazíamos aos pilotos os quais, pela convivência prolongada, se haviam tornado nossos amigos. Entre as encomendas vinham sempre as belíssimas armas esportivas, brilhando de novas, implorando para serem experimentadas.
Inexistindo, ainda, os IBAMA e IBDF de hoje e, de igual modo, as estatísticas sobre animais em extinção, as regras para o esporte da caça eram feitas pelos próprios caçadores, podendo-se dizer que não havia depredação, nem quebra do equilíbrio ecológico, respeitadas que eram as épocas de acasalamento e reprodução, como forma de preservação e subsistência do próprio esporte.
Final de semana, lá estávamos eu, Pastor Halley e o Tonico - um carpinteiro prático que construía casas, tanto de madeira como de alvenaria, barcos de todos os calados, móveis e tudo o mais que lhe dessem para fabricar - prontos com as nossas espingardas e a tralha costumeira para partir rumo ao Lago dos Bois, a fim de caçar os terríveis búfalos remontados da Fazenda do Coronel Nicácio.
Diferentemente das Winchester calibres 30.30 e 40.06 que eu e o Pastor portávamos, Tonico comparecia com um velho fuzil, talvez do tempo da segunda guerra mundial, de procedência nunca esclarecida, que provavelmente há um lustro não via uma limpeza. Munição apropriada para o embate que se anunciava, nossas balas com projetis brilhantes de metal, com ponta explosiva, diferiam muito das enormes garrafinhas do fuzil do Tonico, de cor escura e medindo cerca de dez centímetros.
Manhã cedinho, lá estavam os três mosqueteiros, digo, caçadores, prontos para zarpar na voadeira de 8 metros, calçada no Jhonson de 40 cavalos. Assestamos a proa em direção à foz do Amazonas que deveria ser alcançada em 4 horas na vazante da maré; depois um largo trecho até a foz do Macacoari, próximo ao Cabo Norte e entrada no rio Afuá até a chegada à Fazenda Esperança.
Dada a partida, vento a acariciar nossos rostos e a paisagem tantas vezes observada e sempre admirada, como se nunca a tivéssemos visto, essa era a emoção que nos embalava. Desta vez, entretanto, havia uma expectativa diferente a inebriar os nossos sentidos: a caça ao grande e feroz búfalo negro. Apenas Pastor Halley já havia participado de uma caçada daquele tipo, em outro lugar, lá para as bandas do Rio Aporema.
Antes, uma explicação necessária. O búfalo indiano - o Jafarabadi - foi introduzido no final do século passado na Ilha de Marajó e logo se aclimatou, espalhando-se, dali, para todos os Estados e localidades próximas, entre estas o então Território do Amapá. Animal corpulento (chega a pesar uma tonelada), o búfalo é bastante dócil servindo, inclusive, de montaria para o vaqueiro quando tratado convenientemente. Deixado em total liberdade, porém, remonta-se com facilidade e torna-se uma fera, sendo abatido a tiros pelos peões e donos de fazendas. Essa a origem dos búfalos que iríamos tentar caçar, com a devida autorização do fazendeiro.
Nove horas da manhã lá estávamos nós na imensa boca do grande rio, onde a outra margem é um simples risco a confundir-se com o horizonte. Mais uma hora contornando a costa do Amapá e logo a foz do Macacoari era alcançada. Em meia hora a do Rio Afuá, que conduziria os caçadores ao Lago dos Bois onde ficava a Fazenda Esperança.
Três horas da tarde e chegávamos ao porto da Fazenda, onde fomos recebidos por dois empregados que nos levaram imediatamente ao Coronel Nicácio. Este era um homem corpulento, de meia idade, com a face avermelhada, denotando origem holandesa ou francesa, como acontecia com todos os cearenses que imigraram para a Amazônia nos tempos da borracha. Como o Coronel, muitos prosperaram, adquiriram fazendas e assim puderam comprar por Cem Contos de Reis a patente de oficial da milícia estadual, como era comum, naqueles tempos.
Recebidos efusivamente, com deferências especiais ao Pastor Halley, fomos levados ao salão do grande casarão de madeira de lei que servia de sala de visitas, almoço, jantar e dormitório das visitas. Uma grande mesa estava posta e os mais variados biscoitos, pães e outros quitutes de fabricação caseira foram postos à nossa disposição. Sete horas da noite e um lauto jantar foi-nos servido, regado a histórias de caçadas e pescarias fartas realizadas pelo Coronel no Lago dos Bois. Não foram poucos os lances de perigo e medo narrados pelo anfitrião. Nunca vira antes armas como as nossas, pois, no seu tempo imperavam apenas os fuzis e os rifles calibre 44 - papo amarelo.
Após um sono longo e reparador, nas redes atadas aos esteios do salão, fomos acordados às quatro da manhã e convidados à mesa do café, tão farta como a do lanche do dia anterior. Os aparatos para a caçada já estavam preparados e só então o Coronel apresentou os nossos acompanhantes, ou seja, o Chefe dos peões e mais dois vaqueiros. Simão - o feitor - um homem forte, moreno e caladão, Silviano - um branquelo e tagarela e Zequinha - um caboclo atarracado e sério eram os nossos guias.
Todos preparados, portando embornais e facões, além das rações para almoço contidas em marmitas (apenas os visitantes portavam armas de fogo), partimos às cinco horas da manhã em direção ao Lago. Imaginei que haveria ali canoas que nos levariam a uma caçada confortável.
Fila indiana, seguindo por um caminho cheio de mato (se é que poderíamos chamar aquilo de caminho), postei-me no final e pude observar então, em detalhes, as figuras que compunham o cortejo. Todos vestiam camisas de mangas compridas para defenderem-se do capim chamado unha de gato que cortava que nem navalha. Simão, além do embornal, portava uma faca de uns 50 cm de comprimento, com umas quatro polegadas de largura rente ao cabo e uma ponta fina e penetrante.
Não pude entender o porquê e a serventia daquele instrumento tão desproporcional. Silviano carregava um saco cheios de cordas, provavelmente para laçar o búfalo se não conseguíssemos abatê-lo a tiros e Zequinha levava na mão uma vara de cerca de dois metros, com uma forquilha na ponta (?).
Após uma caminhada de uma hora chegamos, enfim, à beira do “lago”. Lago? Meu Pai! O "lago" era apenas um imenso e terrível chavascal, um pântano aterrador e infindável, cheio de canas e espinheiros da altura de um homem, aqui e ali uma ilha de mata e inúmeros poços de água cobertos de plantas flutuantes. Ao longe, espessa mata corria de sul a norte - imaginei - uma vez que andáramos em direção ao poente. Quantos jacarés, cobras e outros bichos peçonhentos e predadores não haveria por ali, prontos a nos atacarem, antes que tivéssemos tempo sequer de ao menos divisar um búfalo.
Não havia canoa alguma e deduzi, com um misto de expectativa e medo, que iríamos nos meter pântano a dentro se quiséssemos realizar a caçada. Naquele instante as palavras caça e caçador confundiram-se na minha mente e eu cheguei a duvidar se, de fato, nós é que éramos os caçadores.
Absorto, ainda, nesses pensamentos, ouvi Simão - o guia-chefe - perguntar: - Ó Silviano, trouxe a garrafinha de álcool? Pronto, pensei eu, é a desgraçada da cachaça para dar coragem aos nossos guias. - Para que o álcool? indagou Tonico ante a resposta afirmativa do vaqueiro. - É para arrancar as sanguessugas de nossas pernas! respondeu Silviano às gargalhadas. Um frio estranho percorreu-me a espinha. Sanguessugas!...
- Vamos atravessar até aquela mata, pois é lá que estão os bichos! Seguimos à esquerda para começar lá de baixo (ao sul)! Olhei novamente a distância enorme que nos separava da mata e duvidei de que seria capaz de chegar até lá.
- Quem quiser, corta uma forquilha dessas, igual a do Zequinha!
- Para que a forquilha?
- Para chuçar as cobras que atravessarem o nosso caminho, respondeu Silviano, mais uma vez, às gargalhadas.
Já bastava para mim... Olhei para o Tonico e para o Pastor Halley. Este apenas sorriu com um olhar matreiro. Mas, àquela altura, eu não podia retroceder... a covardia por aquelas bandas era tratada com grande desprezo e humilhação. Cortamos as nossas forquilhas e metemo-nos no pântano, fila indiana ainda, Simão à frente, Silviano logo atrás e eu, como sempre, no final.
Caminhar num pântano... não é caminhar! É uma luta renhida, uma provação sem limites, um desafio desproporcional ao porte dos contendores que só é enfrentado por aqueles que trazem na alma a saga da aventura e que são considerados loucos para o comum dos mortais. Mas, "hay que luchar..." e meter o pé, descalço, na lama... que Simão já vai lá longe e não podemos ficar para trás.
Mete-se na lama o pé direito que afunda até os joelhos; tomba-se o corpo ligeiramente para a frente e enfia-se o pé esquerdo que também afunda; retira-se o pé direito da lama e recomeça-se a dança, sem perder o ritmo. O ritmo! Era isso! Havia um ritmo, um balanço cadenciado e era esse balanço que, se assimilado, determinava o avanço e uma certa regularidade na caminhada. Pastor Halley - um veterano - gingava ao compasso dos peões e colava nas pegadas do Zequinha. Bem atrás, eu e o Tonico esforçávamo-nos para pegar o malfadado ritmo e acompanhar a procissão. Assim, com um pouco de treino, conseguimos não somente acompanhar mas nos aproximar do cortejo lá à frente.
Em geral a água era rasa (época de seca) e havia muitos trechos de terra onde nossos pés afundavam, do mesmo modo que na água, pois a lama imperava naquele reino inundado. Simão, à frente, espantava para os lados jacarés, arraias e peixes cascudos que estivessem no caminho. Os primeiros afastavam-se um pouco e ficavam a observar a caravana sem qualquer desejo visível de atacar seus integrantes. O seu alimento preferido era farto e a carne humana, certamente, estava em último lugar, no cardápio.
Logo, surgiu de uma grande moita de juncos um bando de capivaras que se espalhou para todos os lados, em mergulhos e correrias loucas. Eram os campeões de corridas, no pântano. Nem foi preciso qualquer aviso para não utilizarmos as armas porque sabíamos que o menor animal a ser caçado seria o búfalo. Bandos de pássaros os mais diversos, vários animais de pequeno porte... o pântano começava a revelar os seus segredos na beleza infindável dos seres que o povoavam.
Uma ligeira parada, uma visão de perigo e uma demonstração de extrema habilidade e destreza a transmudar a cena: uma enorme e escura serpente, num montículo de barro e capim a poucos passos de Simão, com a cabeça empinada a mais de meio metro do solo, pronta para dar o bote... Sem tremer um músculo, mais ágil que um domador de circo, o caboclo estendeu a forquilha até o corpo escamoso do réptil, deu um leve giro na vara e levantou a cobra no ar ao mesmo tempo em que imprimia forte empuxo que a lançou a uns vinte metros de distância. Agora eu sabia para quê serviam aquelas benditas forquilhas.
- Surucucu do brejo, sentenciou Silviano.
- Venenosíssima, acrescentou Pastor Halley. E assim fomos vencendo o pântano sem ver um búfalo sequer entre a presença constante e farta de outros bichos e aves que o povoavam, embora víssemos constantemente as suas pegadas e fezes espalhadas por todas as partes do brejo. Nem mesmo a grande quantidade de cobras causava impacto, a não ser quando Silviano saiu da trilha para cutucar uma serpente de mais ou menos dois metros, colorida com malhas amarelas sobre fundo cinza, que dormia placidamente sobre um monte de capim. Repetindo o gesto de Simão, Silviano enlaçou a cobra com a forquilha mas lançou-a para o alto ao invés de atirá-la para um lado. Horrorizado vi que a bicha cairia sobre mim e, quase instintivamente, brandi a forquilha no meio do réptil, acertei-o ainda no ar e lancei-o a pequena mas segura distância.
- Ó Silviano, você jogou a cobra em cima de mim!... reclamei, enquanto o caboclo retorcia-se em gargalhadas, acompanhado dos outros peões.
- Caninana. Não é venenosa!... esclareceu Zequinha. Entre assustado e satisfeito eu agora conhecia, por experiência própria, a utilidade daquela forquilha.
Afora algumas breves paradas para descansar, a caravana prosseguia sua marcha sem maiores contratempos, obedecendo ao compasso e ritmo ditado pelo guia-chefe. Foi quando algo indesejável quebrou a normalidade da viagem... Simão balançava freneticamente as pernas e procurava lugar mais seco para subir. Encontrando um montículo, levantou as calças e então pudemos ver enormes sanguessugas cravadas nas suas pernas, estourando de sangue, pois é somente nessa fase de repleção que se consegue sentir a sua presença em nosso corpo.
- Traz o álcool, ó Silviano! Nesse momento Silviano também começou a pular... - Elas pegaram em mim! exclamou. Notei que desta vez Silviano não estava rindo, muito menos gargalhando. Todos levantaram as pernas e, felizmente, somente os dois haviam sido convocados para abastecer o banco de sangue dos anelídeos hirudíneos do pântano, cada um com meia dúzia de vermes grudados em suas pernas.
Passado o susto, ficamos a observar, não sem admiração, a frieza e naturalidade com que os caboclos tratavam as sanguessugas: com um pequeno canivete cortavam o verme pelo meio; o sangue esguichava para todos os lados; em seguida derramavam álcool sobre o órgão sugador do anelídeo que se desprendia imediatamente; mais um esguicho de sangue, desta vez da perna do peão; um ligeiro esfregão no minúsculo ferimento e a operação era repetida até que o último verme fosse retirado.
Ao final prosseguimos viagem e não pude deixar de pensar que, antigamente, as pessoas que sofriam de gota (doença proveniente do excesso de ácido úrico no sangue) eram tratadas com sangrias efetuadas pelas nojentas sanguessugas. Concluí então que era melhor perder ali, no pântano, algumas gotas de sangue para as sanguessugas do que ter que tratar uma gota, com sanguessugas, numa cama de hospital.
Três horas de caminhada, enlameados e estropiados, chegamos enfim à mata aonde terminava abruptamente o pântano. Nenhum sinal de búfalo! Teríamos que caminhar agora de sul a norte, rente à mata, para ver se encontrávamos os animais. Felizmente esta nova caminhada seria feita em terra seca e o ritmo do andar dos caçadores agora era outro, entre o trôpego e cansado dos andarilhos da lama e o prudente e silencioso dos ansiosos pelo encontro da caça.
Meio dia, após várias horas andando à beira da mata sem ver qualquer búfalo, embora os seus sinais fossem abundantes, pensei em pedir uma parada para comer a carne cozida misturada com arroz e farinha que trouxéramos no embornal. Pensei, apenas... Pois a alguns metros à frente, onde a mata dobrava em círculo para a esquerda, Simão atrás de uns arbustos acenava para que nos aproximássemos em silêncio. Eu e Pastor Halley corremos abaixados, já com as armas empunhadas, até o lugar em que o caboclo estava.
O cenário que se descortinou aos nossos olhos era simplesmente maravilhoso: um lago de águas límpidas confrontava-se com a mata e o pântano. Para o lado da mata, um extenso gramado parecia ter sido aparado à maquina. Bem na beira do lago, a uns cem metros de distância... três grandes búfalos negros... Um deles, deitado, deveria pesar uma tonelada e parecia ser uma fêmea. Outro à sua frente e próximo a água, era o menor - um mamote - novilho de três a quatro anos de idade e outro, atrás da fêmea, deveria ser um macho mais velho.
Não sei quanto tempo ficamos ali, a olhar embevecidos para o cenário à frente. Como seria possível passar de um estado de extremo cansaço e desânimo a outro de total exultação? O coração disparava... Eu e Pastor Halley nos entreolhamos. Tonico chegara atrás de nós. A situação era a mais favorável possível: vento contrário, não levava o cheiro humano às narinas super-sensíveis dos animais; a distância que nos separava era a metade da que precisávamos para que nossas armas fossem utilizadas com precisão. Enfim, chegara a hora tão ansiada. A cena estava armada; não faltava qualquer figurante; era só dar início ao espetáculo...
- Atiraremos ao mesmo tempo no mais novo! O que está à beira d'água! - disse Pastor Halley, com voz trêmula. Em cima da pá direita! Já!
Levantamo-nos ao mesmo tempo... miramos... e atiramos...
Dois tiros reboaram pela fímbria do arvoredo, retumbaram em reverberações pelos anéis do pântano, espalharam-se em turbilhões pelos ares e penetraram em catadupas pelas entranhas da floresta - violentando a tranqüilidade do dia e deixando a natureza em transe...
Apenas dois tiros, porque o fuzil do Tonico mascou e a bala não detonou. Os três búfalos negros deram meia volta e, em desabalada carreira, penetraram mata adentro.
- Não acertamos? Acertamos, pois ouvimos claramente o barulho surdo do impacto das balas na couraça do animal!
Instintivamente saí correndo em direção ao lugar em que os búfalos entraram na mata, sem atinar para o insistente chamado do Pastor que repetia: “Irmão, volte aqui! Cuidado, volte aqui!”.
Entrei apenas alguns passos na mata... e estaquei lívido e transido de pavor. Ali à minha frente, a não mais que cinco metros de distância estava o búfalo ferido, de pé, com os olhos flâmeos a me fitarem e em inequívoca posição de ataque. Dispus-me ante a iminência do perigo e mirei a testeira do animal com o telescópio da arma. Lembrei-me porém que o osso naquela parte da cabeça tinha em média dez centímetros de espessura e não seria penetrado.
É certo que apenas as ondas de impacto da bala de uma Winchester 30.30 seriam capazes de atingir o cérebro do animal e o derrubariam com o choque, mas, à distância tão pequena, a bala não atingiria velocidade conveniente ao efeito desejado. Sabia, também, que se a fera não tombasse àquele tiro, arremeteria como um mortífero rolo compressor, na fúria sanguinária de destruir o que encontrasse pela frente.
Não sei quanto tempo permaneci estático, naquele terrível e perigoso estado de confusão mental. Comecei a divagar, pensando em meu pai que passara cinqüenta anos de sua vida trabalhando em plena selva, enfrentando todos os perigos inerentes e escapara ileso... Vi então uma tênue luz interpor-se por um momento entre mim e a fera... Quando percebi que a mente resvalava perigosamente para o limbo acinzentado das regiões de fuga e alienação... num esforço desesperado de auto-preservação, baixei a mira da arma para o tronco do pescoço do animal na esperança de atingir-lhe o coração... e puxei o gatilho...
Ao ribombo do trovão, contrariando todos os códigos instintivos de sobrevivência, o búfalo girou 180 graus e penetrou mais fundo no coração da mata. Provavelmente o clarão de fogo que saíra do cano da arma, acentuado pela penumbra do arvoredo, confundira o instinto do animal e quebrara a cadeia de reação natural que o impelia. Só então chegaram Pastor Halley, Tonico e os vaqueiros.
- Que tal, irmão, cadê o búfalo? Ao contar-lhe o que acontecera, o Pastor exclamou: Foi um milagre! A única defesa de um animal ferido é o ataque!
- Mas, três tiros mortais e não caiu? retruquei.
- Nove tiros mortais foram quantos acertamos no bicho, na última caçada, antes que ele caísse! disse Pastor Halley.
Santo Deus! Que formidável criatura era aquela originária da distante Índia! Orientados por mim para o lugar onde a caça desaparecera, entramos os três cautelosos na mata, Pastor Halley à frente e eu, obviamente atrás. Os vaqueiros permaneceram no campo a espera do desenlace. Abrimos em rumos diferentes e, vistas aguçadas, procuramos o animal que sabíamos não estar longe, ferido e à espreita. Tonico foi o primeiro a avistá-lo e pela primeira vez ouvimos o tiro de seu fuzil; um tiro chocho, sem eco, como o pipoco de um revolver calibre 22.
- Bala fria, pensei.
Como ainda estivéssemos próximos um do outro, vi então o búfalo arrancar em nossa direção. Desta vez havia as árvores para livrar-nos de sua trajetória. Atrás de um grande tronco, Pastor Halley, a não mais que dois metros de distância, disparou a sua 40.06 no flanco esquerdo do animal. O impacto da bala fez estremecer o corpanzil da fera mas esta continuou a corrida para a frente - mais por força da inércia do que pela força dos músculos - e desabou afinal, com grande estrépito, a muitos metros de distância, derrubando árvores de menor porte e abrindo uma clareira à sua volta.
- 700 quilos! sentenciou Simão. 4 tiros mortais! exclamou Pastor Halley, com a confirmação silenciosa dos vaqueiros que haviam chegado naquele instante.
Finalmente! Ali estava à nossa frente, abatido e indefeso, o grande búfalo negro do Lago dos Bois. Com os olhos revirados, sangue abundante a escorrer-lhe pela boca o animal, mesmo caído, esperneava lançando as enormes patas para os lados, numa última reação de defesa possível.
- Que massa de animal formidável! pensei. E ali estava, vencido, não propriamente por nós, caçadores, mas pelos pequenos e terríveis projetis das armas que portávamos. Não era à-toa que as distantes nações beligerantes davam mais valor à potência de seus arsenais armamentistas do que aos contingentes humanos de seus exércitos. Procurei varrer da mente esses pensamentos deploráveis. Afinal... estava tudo acabado. Como tanto desejáramos, havíamos abatido a caça!
Acabado? Puro engano! Um novo ato era então representado no palco. Silviano naquele instante, sacando as cordas que trouxera no saco, peava o animal com incrível destreza, juntando patas dianteiras com traseiras, numa laçada intrincada e impossível de desprender. Zequinha segurava um chifre de quase um metro, com as duas mãos e torcia-lhe o pescoço firmando o outro chifre no chão. Simão - como se fora um mensageiro da morte - empunhou sua faca de meio metro e enterrou-a até o cabo no peito do animal; sentindo-lhe provavelmente o coração, enfiou ainda mais a peixeira até sua própria mão penetrar pelo corte e, com uma forte torção, arrancou a faca ensangüentada, na certeza de que o estrago feito no coração da presa fôra completo e irremediável.
Do largo corte efetuado, o sangue jorrava em borbotões e o búfalo estrebuchava na agonia da morte: deu uma parada brusca nos movimentos; retesou todos os músculos do corpo... e soltou um mugido lon...on...go e pungente... que ecoou pelas quebradas da floresta até perder-se na amplidão...
Não juro, mas sou capaz de afirmar, com toda a certeza, que ouvi, distante e sonoro como o vento, um coro lamentoso de mugidos, em resposta solene ao mugido pungente do companheiro que tombara.
Engenhosos e práticos, os caboclos não se detinham, como nós, em reflexões filosóficas e, logo, cada um atacava com determinação os afazeres do pós-guerra. Zequinha roçava e capinava a área em derredor. Silviano soltava as cordas que peavam o animal morto e acompanhava Simão nas tarefas de descoiramento.
Como carregar tanta carne? pensei. Como que em resposta ao meu pensamento, Simão ordenou a Zequinha: Busca as mulas! E Zequinha prontamente pôs-se a caminho para trazer as mulas de carga e, por que não, dar a boa notícia da caçada ao proprietário e empregados da Fazenda Esperança.
Eu, Pastor Halley e Tonico só podíamos ficar olhando a maestria com que Simão e Silviano tiravam o couro do animal. Então pudemos ver que a bala do velho fuzil do Tonico apenas perfurara a pele e se estilhaçara em três fragmentos que pararam a pouca distância um do outro. Enquanto isso, as balas da 30.30 e da 40.06 penetraram o corpo do animal e despedaçaram, esmiuçaram mesmo, quase todos os seus órgãos internos.
Uma hora da tarde! Só então lembrei-me de que não havíamos comido nada e sacando a marmita do embornal comecei a refeição, no que fui imitado por Tonico e Pastor Halley. Nesse ínterim, Simão e Silviano já haviam descoirado completamente a caça, que se encontrava limpa, sem pernas, sem cabeça e sem miúdos, em cima do próprio couro. Limpando-se ligeiramente nas folhas, também atacaram suas marmitas.
- Quantas horas para o Zequinha chegar aqui, de volta, com as mulas? perguntei.
- Lá pelas três ou três e meia ele estará de volta, respondeu Simão. Vocês podem voltar à Fazenda com o Silviano que eu termino de esquartejar o mamote! Era justamente o que queríamos ouvir. Juntando a tralha empreendemos a jornada de volta e enfrentamos novamente o pântano, desta vez com ânimo redobrado ante o sucesso da caçada e mais ainda por ouvir Silviano dizer que a casa grande ficava logo ali em frente, de vez que, ao seguirmos a orla da mata, fizéramos uma grande curva, paráramos no lugar mais estreito do pântano e, por conseguinte, mais próximo da casa.
Então era assim? Depois de andarmos tanto, encontráramos os búfalos negros no lugar mais próximo à Fazenda... Se tivéssemos antes atravessado ali... Não importava, agora.
De fato, lá pelas três horas da tarde chegamos à sede da fazenda, tendo antes passado por Zequinha e mais outro empregado que tangiam quatro mulas para carregarem, cada uma, um quarto de carne do búfalo abatido.
Encontramos o Coronel eufórico e os empregados numa azáfama incomum à espera dos peões. Quatro enormes gamelas (vasilhas de madeira), contendo salmoura para conservar a carne estavam armadas, cada uma para receber um quarto do búfalo.
Não havia geladeira na fazenda, nem mesmo gerador elétrico, e era assim que se conservavam as carnes: um dia na salmoura e mais alguns no sol até serem consumidas. Também eram conservadas, em pedaços, na banha de porco, depois de cozidas.
Lá pelas tantas chegaram os vaqueiros com as carnes envoltas em pano de estopa sobre as mulas, com lama sobre tudo o que se podia ver.
Lavadas as carnes, as grandes peças foram lançadas nas gamelas de salmoura. Antes foram extraídos filé, alcatra e contrafilé para o churrasco que já se anunciava, pela grande fogueira que ardia no terreiro da Fazenda.
- Os caçadores têm direito a um quarto da caça - disse jovial o Coronel - como é o costume por estas bandas! Escolham qual preferem!
- Um quarto traseiro! - disse Pastor Halley, com o que eu e Tonico concordamos plenamente.
Churrasco pra lá... Cantoria pra acolá... Alegria geral e euforia exagerada por parte do Coronel e alguns empregados, certamente provocada pela pinga bebida às escondidas, em respeito ao Pastor Halley, fomos dormir lá pela meia-noite, cansados, mas satisfeitos pelos sucessos da caçada. Graças a Deus, a aventura se completara sem acidentes, apesar dos perigos e canseiras que enfrentamos.
Manhã clara, tomamos o café, carregamos nossa tralha e a peça de carne com a ajuda dos vaqueiros, despedimo-nos do Coronel e de todos os que ali estavam e rumamos para o barco a iniciar a corrida de volta aos nossos lares.
Vencido o grande trecho do Rio Afuá que vai da Fazenda até a foz do Macacoari e desta, até a foz do Amazonas, deixamos para trás, na esteira espumejante da "voadeira", as lembranças vívidas do terrível pântano que atravessáramos, para nos firmar na lembrança dos familiares que dentro em pouco abraçaríamos.

Anos depois...
muitos anos depois daquela caçada,
(muitos anos, mesmo),
nas noites geladas do inverno das Gerais...
no interior da casinha em que moro
no sopé da Serra do Onça...
quando o meu espírito vagueia
pela região dos sonhos e ilusões errantes...
eu ainda vejo... vejo claramente...
os olhos flamejantes do grande búfalo negro
do Lago dos Bois a me fitarem.

E quando, na ânsia de fugir sem poder sair do lugar eu começo a gritar, então um coro solene de mugidos plangentes vem encher de sons a catedral dos meus sonhos e eu acordo soluçando... completamente imerso nas lembranças tristonhas do passado.

A V E N T U R A !
A V E N T U R A !
Não serias tu, por acaso, a figura diáfana que se interpôs, por instantes, entre mim e a sombra ameaçadora daquela fera?
Conto de Heriberto Reátegui

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4 comentários:

  1. Sniper
    Acompanho o blog e não tenho mais palavras para elogiar seu trabalho. Viagei em mais esta aventura. Dá até vontade de morar na Amazônia.

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  2. PROFESSOR WSNIPER
    QUE BELISSimA HISTORIA, FAZ COM COM VOLTEMOS AO TEMPO DAS DILIGENCIAS(FILMES) DA ÉPOCA.
    PARABÉNS PELA PAGINAS
    UM BELÍSSIMO TRABALHO.
    JMARTINHO
    EMAIL-josepescadorster@gmail.com

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  3. Viajei na história, foi como se eu estivesse lá. Parabéns


    robsonshobukan@hotmail.com

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  4. historia legal da até vontade de fazer a mesma coisa só que esse mundo moderno nos impede parcialmente de fazer essas coisas!!
    lucaslcs_22@hotmail.com

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